sábado, 9 de maio de 2026

Comunicação popular em Marabá, um sobrevôo nos anos 1980-90

 

Sete jornais alternativos, vídeo e rádio numa região explosiva

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Como dois e dois são quatro
sei que a vida vale a pena
embora o pão seja caro
e a liberdade pequena.”


Ferreira Gullar.

Dois e Dois: Quatro”

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Por Rogério Almeida, julho de 2005

Barca, O Mandi, Bafo de Bode, Ouriço, Cupim, O Artista, Informativo da PA 150 foram alguns boletins encontrados numa pasta suspensa de um arquivo do Centro de Educação, Pesquisa e Assessoria Sindical e Popular (Cepasp), uma Organização Não Governamental (ONG) de Marabá, cidade do sudeste paraense, com uma média de 200 mil habitantes, que tem no comércio a sua locomotiva. Marabá é  centro  político e econômico da região sudeste do estado.


Exceto o Bafo de Bode, que teve duas edições no ano de 90, todos os boletins datam da década de 80, 20 anos atrás. Anos em que a atmosfera da época era impregnada pela Doutrina da Segurança Nacional.

 

Cenário


Naqueles dias o coração da Amazônia, a parte Oriental, experimentava a implantação de grandes projetos, como a construção da hidrelétrica de Tucuruí, exploração da jazida de Ferro em Carajás, inauguração da Ferrovia de Carajás, que liga a reserva mineral no sudeste do Pará ao Porto da Ponta da Madeira em São Luís, Maranhão. 


Os anos são definitivos para a região. Instantes da reorganização das entidades populares. Momentos em que homens formigavam em Serra Pelada e os militares davam o tom. Arriscada se tornava a produção de boletins com aura de  subversão, ainda mais por se tratar de região palco do movimento guerrilheiro do  Araguaia. Dos informativos elencados acima, nem todos tinham tal inspiração. Não vamos falar de todos. Afinal, isso não é uma tese, apenas um breve sobrevôo.


Máquina de escrever, colagem, fotos, cartuns, xerox ou mimeógrafo, almas impregnadas de espírito democrático eram algumas das ferramentas usadas para a produção dos boletins. Os formatos são variados. Há os de folha de chamex dobrada ao meio, há os tablóides. Assim como variam os formatos, variam os números de páginas e conteúdos. 


A periodicidade, como sempre nessas experiências sofre de falta de continuidade. E a continuidade é elemento basilar para se consolidar uma experiência em comunicação. Os informativos são o ponto de partida para que a gente possa conhecer um pouco da  experiência de comunicação popular em Marabá e vizinhança. 


ARCA – é uma referência ao episódio bíblico do dilúvio quando por  quarenta dias e quarenta noites a terra padeceu com intensa chuva. E sob a ordem divina Noé construiu uma arca onde deveria colocar casais de animais e a sua família para a construção de um novo mundo. 


No caso de Tucuruí, cidade do sudeste paraense banhada pelo caudaloso rio Tocantins, tratava-se de cunhar um boletim que registrasse a luta do camponeses que seriam deslocados com a formação do lago da hidrelétrica. Assim explica a apresentação do número 01 do boletim ARCA – dos moradores da área do reservatório da Barragem de  Tucuruí. 


A usina que se encontra em fase de duplicação foi construída para fornecer energia subsidiada para empresas de alumínio em São Luís (ALUMAR/ALCOA), Maranhão e Barcarena (CVRD e capital japonês), Pará. 


Em 34 páginas num formato ofício o ARCA de número 01 datado de setembro de 1982 a janeiro de 1983 registra o acampamento de 400 trabalhadores rurais em frente ao Serviço de Patrimônio e Indenizações –SPI – da Eletronorte entre os dias 09 a 11 de setembro de 1982. No mesmo período no município de Ronda Alta no Rio Grande do Sul, era erguido o embrião do principal movimento camponês do Brasil, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). 


O boletim sem expediente é assinado pelo Movimento dos Desapropriados pela Eletronorte Barragem de Tucuruí, onde figuram comissões de moradores de Repartimento, Colônia de Mojú, Itupiranga e Tajiri. 


Do movimento sindical registrasse a presença da delegacia sindical de Repartimento, Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Tucuruí e o sindicato de Jacundá. No apoio figuram a CPT de Cametá e a Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (CONTAG). 


Farto em fotos, o ARCA traz documentos como pauta de reivindicações onde os trabalhadores rurais a serem atingidos pela lagoa da usina exigiam áreas de 21 alqueires para lavoura, casas, vilas, recuperação dos prejuízos e indenizações justas. Passados 23 anos ainda hoje há pessoas que reclamam reposição de prejuízos em acampamentos. 


Uma nota de esclarecimento do movimento dos atingidos pela barragem inclusa no jornal denunciava a forma autoritária da Eletronorte. Entre as denúncias constava que os colonos foram obrigados a assinarem folhas em branco e que sofriam ameaças moral e físicas para que recebessem as indenizações sem reclamar. A insuficiência da indenização também é colocada pelo movimento. 


A questão agrária é tratada como uma questão militar. Com a região considerada como Área de Segurança Nacional cria-se o Grupo Executivo de Terras Araguaia Tocantins (GETAT). 


Sobre a negociação com o GETAT o ARCA enfatiza que “o coordenador do GETAT explicou que eles tem como padrão de entregar apenas 10 alqueires, porque não existe muita terra disponível na região. Mas se existe terra não ocupada o colono poderá ganhar mais terra e nas glebas de Parakanã, Pitinga e São Félix do Xingu o colono poderá ter até 2 lotes de 10

alqueires.“ Na época estimava-se me 4 mil famílias de trabalhadores rurais afetados pela barragem.


Com duas edições na década de 90, o boletim Bafo de Bode é o segundo boletim visitado em nossa viagem. O boletim era apócrifo, ou seja, ninguém assinava o conteúdo radical, contestatório e de denúncia. No expediente, apenas a tiragem, 2.500 exemplares. Matava-se muito naqueles dias. Preferência por lideranças sindicais, religiosos, advogados ligados na luta pela reforma agrária. Há algo de novo no front? 


Bafo trazia problemas relacionados com o campo e a cidade. Mantinha uma certa vigilância com a inércia da Câmara de Vereadores. Na edição de número 02, do dia 28 de janeiro de 1990, O Bafo disparava contra os vereadores: “Depois de muitos atropelos dos vereadores, sem saberem como fazer uma Constituição Municipal, agora chegam ao pior, o grupo de oito vereadores da ala “baforida” do prefeito não comparece às sessões, boicota o regimento interno aprovado por ela mesma. Vamos repetir os nomes deles: Guido Mutran, Emerson, Reinaldo Zucatelli, Antônio Cabeludo, Evaldo Bichara, Elza Miranda, Manoel do Nilo e o vendido Maurino Magalhães. “


Podemos encontrar no Bafo de Bode preocupação com a chaga da violência na região. Na mesma edição, o Bafo noticia as ações do pistoleiro Sebastião da Terezona : “Ainda na audiência que houve em Marabá no processo contra o afamado pistoleiro da região, Sebastião da Terezona, o mandante e executor da chacina de Ubá, Edmundo Virgulino, foi o interrogado desta semana. Nessa chacina teve nove mortos, incluindo a criança por nascer.”


Ainda sobre violência contra trabalhadores rurais, segue o boletim: “Também teve a audiência do processo que ocorre contra Marlon Pidde, que assassinou cinco lavradores na região do Itacaúianas, os quais tinham recebido terras do Grupo Executivo de Terras do Araguaia Tocantins (GETAT). Quem foi a testemunha” Adivinhem! Só podia ser o chefe da UDR de Marabá. Todos nós sabemos que é a UDR que mais financia assassinatos de lavradores no Brasil.”


O informativo Cupim é órgão de comunicação da Associação dos Trabalhadores em Educação, o número que encontramos data de setembro de 1981, nas quatro páginas que o compõem, materiais sobre educação de uma forma abrangente. No número que tivemos acesso notas abordando a luta por escola públicas em Belém. O cupim explica ainda o que é o IPASEP (Instituto de Previdência e Assistência dos Servidores do Estado do Pará), além de chamar atenção sobre as péssimas condições de infra-estrutura da escola pública em Palestina do Pará, onde os alunos não tinham carteiras e faziam uso do chão no lugar como assento. Cenas tão antigas. Cenas tão atuais.


Em novembro de 1981 saía do formo a edição de número quatro do boletim O ARTISTA, Órgão de Comunicação da Arte e da Cultura Marabaense, assim se arvorava o jornal de nove páginas, com suas onze sessões. Carlos Alberto Martins Barros (diretor), Carlos Alberto Gonçalves (vice-diretor), Angélica (secretaria), Wilson Teixeira e Isis Mourão (reportagem), Sônia Maria e Irenilce Ribeiro (colunistas), João Guimarães (humor), Júnior Félix  (esporte),eram as almas que compunham o escrete de O Artista. Na sessão de notícias, flagramos o registro da primeira apresentação do Grupo de Teatro Maget,a inauguração da ponte sobre o rio Itacaiuanas, além da presença da biblioteca do Projeto Mobral, projeto do governo federal direcionado par alfabetização de adultos.


O MANDI É um peixe pequeno farto nas águas do rio Tocantins, que ao lado do Itacaiúnas banham a cidade. O peixe mandi usa de dois esporões para se defender dos predadores. Os nativos da região o consideram saboroso no leite de coco ou frito. O nome do peixe batizou o boletim de 12 páginas, composto por textos, entre editorial, crônicas, notas e artigos. Encontramos dois números nos arquivos do Cepasp. No número inaugural datado de maio de 1981,  o editorial destacava a preocupação com o modelo de desenvolvimento  implantado na região.


Sobre as linhas de crédito direcionadas para os fazendeiros do centro sul do país, O Mandi alertava : “Fazendeiros receberam milhões de cruzeiros para a implantar projetos pecuários, sem assumir em troca desses créditos especiais – qualquer responsabilidade com a sociedade brasileira. As fazendas são implantadas por “gatos” (agentes que contratam peões), com o massacre da floresta, a queima indiscriminada da terra, o gado criado como Deus criou o macaco.” O Mandi não contém expediente, no entanto os artigos são assinados e dados os créditos, quando extraídos de outras fontes fora da região.


No número um do Mandi, artigo do jornalista e advogado Ademir Braz intitulado a Invenção da Democracia figura na edição. Ainda na mesma edição notas de desagravo contra a Cosanpa (Companhia de Saneamento do Pará), sobre a constante falta de água. Antonio Machado, Melquiades Brito, são outros que colaboraram no Mandi. 


Sobre a repetição de emissoras de TV na região, o informativo noticiou: “Gradativamente o Maranhão vai tomando conta da nossa região. A TV Marabá passou a repetir o sinal da TV Difusora de São Luís. Em todo o Pará as imagens de televisão são levadas para o interior através da Funtelpa (Fundação das Telecomunicações do Pará), o mesmo que a Embratel faz com os Estados.”Só uma alerta, durante a nossa abordagem, estamos  colando os textos ao pé da letra, sem a correção com os deslizes gramaticais.


Boletim do Cepasp – Em 1988 começa a circular o boletim do Cepasp que foi editado até 1999. O boletim nasceu com a preocupação de se criar um veículo de comunicação que publicizasse as demandas populares do campo e da cidade. Assuntos como meio ambiente, violência, política, alimentavam o conteúdo do informativo, que quando começou a ser editado, seguia uma lógica parecida com a dos informativos pioneiros: máquina de escrever, colagem, uso de  gravuras, cartuns, ajudavam a aliviar a carga de textos. 
 

No expediente de um número de 1992, figuram os nomes do hoje vereador pelo Partido dos Trabalhadores (PT) de Marabá, Raimundo Gomes da Cruz Neto (Raimundinho), Alice Margarida, hoje professora, cursando mestrado na França, Jorge Neri, membro da coordenação do MST do Pará, Gilberto de Souza, agrônomo hoje  radiado em Belém e Raimundo Azevedo, militante do MST de Marabá. Mil exemplares era a tiragem. 
 

Na edição de número 29, que correspondia de agosto a dezembro,  questionamento sobre a presença da Companhia Vale do Rio Doce (CVRD) na região, a forma autoritária da companhia determinar suas ações. Na matéria veiculada sobre a CVRD, o destaque trata da distância que a CVRD determinou para ser a  estação de trem para passageiros, seis quilômetros distante do centro da cidade.

 

Na mesma edição, reflexão sobre a cassação do então deputado Vavá Mutran, devido o assassinato do fiscal da Receita Federal, Daniel Lira Mourão, a derrota de Plínio Pinheiro no pleito eleitoral para ocupar a prefeitura de Marabá para a Haroldo Bezerra, além do afastamento de Nagibinho da prefeitura de Marabá, acusado de corrupção. Sobre Haroldo Bezerra, o boletim analisa: “Pode ser o “menos ruim”, mas no entanto, não significa o melhor para os trabalhadores.” 


No mesmo número a insurreição do MST é contada através da história de um acampamento na sede do INCRA que durou cinco meses. Tratava-se de 320  famílias de trabalhadores rurais que rompiam o grilo da fazenda Rio Branco,  localizada 40Km do município de Parauapebas. O acampamento recebeu oito novas crianças, no entanto, cinco crianças morreram de desidratação e doenças respiratórias durante acampamento. 
 

O informativo do Cepasp é um marco histórico na iniciativa de comunicação popular, durou onze anos. Deixou de ser editado por falta de recursos no caixa da entidade. Além do boletim a entidade mantém arquivo da história da região direcionada para a questão do meio ambiente, foco nos grandes projetos, direitos humanos, trabalho de gênero e educação popular. 


Conta ainda com um acervo de fitas de vídeo e slides. Além do boletim a entidade produziu várias cartilhas, folderes, livros, entre as publicações: Fazendo um jornal popular, Fazendo o sítio consorciado, Agro-extrativismo o condutor da unidade produtiva, Em busca do desenvolvimento sustentável; Sudeste do Pará : um estudo de sua história; Cepasp, 15 anos. O Cepasp contribuiu ainda com publicações do Fórum Carajás, e é citado como fonte de pesquisa em várias publicações de pesquisadores nacionais e internacionais. 


Outros impressos


Apesar de não ter tido acesso a nenhuma edição, através de conversa com veteranos militantes populares, consta que o extinto Movimento de Educação de Base (MEB) chegou a publicar o boletim Olho Vivo. O mesmo teria circulado no início da década de 90. Na cidade que se consolida a cada dia como a principal das regiões sul e sudeste do Pará, outras iniciativas de comunicação popular pipocaram. No bairro de Santa Rosa, um dos primeiros a alagar quando da cheia do rio Tocantins, a associação de moradores chegou a editar o Expressão Popular no ano de 1997, única edição. 


A Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Pará (FETAGRI), regional sudeste do Pará, edita quatro edições de um tablóide de quatro páginas. A primeira teve um papel de construção coletiva bem interessante. Como os diretores desconheciam o processo de definição de matéria, produção, revisão final, editoração, exigiam urgência. Tratava-se de um abril do ano de 1999, a entidade promovia ao lado do MST e a Comissão Pastoral da Terra (CPT), o segundo grande acampamento de trabalhadores rurais em Marabá, onde fica a sede do INCRA regional. Após vararem uma madrugada passaram a ter calma com a produção do boletim. 


Nesse primeiro número, o boletim trazia na matéria de capa um alerta sobre a política de reforma agrária do governo de FHC, onde a manchete anunciava: “Governo quer acabar coma reforma agrária.” Na foto central, destaque para o dirigente Francisco D´Assis Soledade, eleito vice-prefeito de São Domingos do Araguaia na eleição de 2000. D´Assis foi o primeiro presidente da Fetagri sudeste do Pará. Naquele ano a região registrava somente 219 projetos de assentamento, distribuídos em 39 municípios. Hoje são mais de 400  assentamentos, trata-se da principal concentração de projetos de assentamento do país.


A matéria de capa denunciava a municipalização da reforma agrária, onde os recursos deveriam passar pelos conselhos municipais, e não mais pelos clientes da reforma agrária, os trabalhadores rurais. A mesma matéria  anunciava ainda o fim do Programa de Crédito de Especial para a Reforma Agrária  (PROCERA). Uma matéria interna chamava atenção para o Grito da Terra Brasil, um protesto nacional para alerta sobre as questões da reforma agrária. No caso  amazônico, a reivindicação recaia para a necessidade de mudanças no Fundo  Constitucional do Norte (FNO). 


Ainda na mesma edição um alerta sobre os três anos do Massacre de Eldorado do Carajás e denúncia sobre superfaturamento nos processo de desapropriação das Fazendas Flor da Mata localizada em São Félix do Xingu e Oito Barracas, na cidade de São Domingos do Araguaia. Um outro alvo do boletim da Fetagri era a má aplicação e os desvios de recursos da reforma agrária por prefeitos da região. Numa nota sobre a nova direção da Fetagri, o nome de José Dutra da Costa (Dezinho), dirigente sindical de Rondon do Pará que seria morto no ano seguinte. 


A principal demanda das regiões sul e sudeste do Pará possui relação com a questão da terra. Seja a disputa entre sem terra e supostos donos, ou grileiros, seja devido a constante reconfiguração espacial que são alvo as regiões, devido a implantação / ampliação de grandes projetos, ou a criação de novas unidades administrativas. Daí emerge a Companhia Vale do Rio do Doce (CVRD) como o principal ator social da área econômica. A CVRD tem  ampliado as suas ações para municípios como Canaã dos Carajás, onde explora jazida de cobre.


A implantação de projetos como esse sempre produzem passivos sociais e ambientais desconsiderados na matemática do capital. Uma outra questão que ameaça os trabalhadores rurais, populações indígenas e outras modalidades de  populações tradicionais, são os projetos de hidrelétricas agendadas para a região. Uma média de 15 ao todo a serem implantadas na bacia do Araguaia Tocantins, a maior em potencial de energia hidroelétrica do Brasil, bem como a expansão da fronteira agrícola centrada na produção de soja. A disputa pela terra imortalizou a região como a mais violenta do Brasil e consequentemente, a que mais crimes impunes possui. 


Um desses casos é o dirigente José Dutra da Costa, “Dezinho”, da cidade de Rondon do Pará, comandada pelo fazendeiro e dono de serrarias, uma  espécie de manda chuva da cidade, o mineiro José Décio Barroso Nunes, “Delsão”, principal suspeito de mandar matar Dezinho. A edição de número quatro do boletim da Fetagri, editado em dezembro de 2000, é toda dedicada ao caso da morte do dirigente sindical, conhecido pela sua fibra na luta pela  reforma agrária.


Na capa uma foto do dirigente sentado com as mãos entrecruzadas, os olhos apertados, como se quisesse se proteger do sol, e manchete: “A Luta pela reforma agrária é maior que a morte” Até hoje o caso continua impune, como as mais de 500 quinhentas mortes ocorridas ao longo de 32 anos. Somente o pistoleiro está preso, Wellington Silva, um baiano, na época com 20 anos, recém chegado à cidade. O primo Ygoismar, o intermediário do crime, está foragido.


O jornal conta que o desembargador Otávio M. Maciel ordenou a soltura do fazendeiro com mandado recheado de equívocos, com a desconsiderou o aspecto de prisão preventiva, quando o acusado estava preso sob a lógica de prisão temporária, que possui um ordenamento legal diferente do amparo dado pelo desembargador. 


O ilustre é uma persona non grata entre os que defendem a  bandeira da reforma agrária. Atualmente aposentado, foi premiado pelo atual governador do Pará, Simão Jatene (PSDB), com o cargo de ouvidor Agrário do Estado. O desembargador ficou conhecido pela sua agilidade em expedir mandados de reintegração de posse de áreas ocupadas por sem-terra.


A segunda edição do impresso datado de junho 1999 tem uma capa apologética, onde a matéria destaca que: “Fetagri arranca 65 milhões do governo federal”. No conteúdo indica as alterações nos números dos valores dos créditos para a reforma agrária: a questão fundiária teria o orçamento de R$ 30 milhões,  pulou para R$ 65 milhões, no item assentamentos, pulou de R$ 19, para R$ 49 milhões. É o ano em que o governo implantava a política batizada de Novo Mundo Rural, avaliada pelos movimentos populares como a mercantilização da reforma agrária, uma bula das agências multilaterais, que percebe no produtor familiar um agente a ser integrado à lógica do agro-negócio.


Na mesma edição, o boletim alertava ao ministro da Justiça, Renan Calheiros sobre a existência de uma lista com dezoitos nomes de pessoas envolvidas na luta pela reforma agrária na região marcadas para morrer.  A produção dos boletins tinha como entidade âncora o Cepasp. 


Na edição de número três, datada de julho de 2000, a capa era dedicada para a realização de um acampamento de trabalhadores rurais na sede do INCRA de Marabá, com vistas à garantia de acordo firmado no mês anterior durante o Grito da  Amazônia 2000, uma versão do Grito da Terra regionalizado. 


Na mira central, denúncias sobre o senhor Victor Hugo da Paixão, então superintendente do INCRA de Marabá. A edição argumenta sobre o fim do programa de assistência técnica nos projetos de assentamento, o Lumiar.


O boletim salienta numa matéria interna que pela primeira vez um mandante de morte de dirigente sindical ocuparia o banco dos réus. No caso seria o senhor Jerônimo Alves de Amorim, 61 anos, mandante da execução de Expedito Ribeiro, sindicalista de Rio Maria. O fazendeiro foi condenado a 19 anos e seis meses de cadeia. Apesar de uma decisão histórica, hoje o fazendeiro cumpre prisão domiciliar em sua mansão em Goiânia, Goiás, alegando motivo de saúde. O fazendeiro foi preso pela Polícia Federal quando passeava no México, com documentação falsa após anos de fuga. 
 

As múltiplas ferramentas criadas


Podemos perceber nesse breve levantamento que ocorre no interior das  entidades uma consciência política em se construir ferramentas de comunicação. Notamos que são múltiplas as ferramentas criadas. Como a organizada pela Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional – FASE, que no ano de 1993 criou em Marabá o núcleo da Associação Brasileira de Vídeo Popular – ABVP. A motivação inicial recaía para a formação e a informação de comunidades através da linguagem do audiovisual, que deveria a partir de videoteca, consolidar uma produção regional. Na trincheira associações de moradores, pastorais, sindicatos.


Relatórios da FASE informam sobre a realização de oficina de produção de vídeo realizada em Marabá. Via a FASE no ano de 1997 foi adquirida uma ilha de edição, telão, uma Kombi, câmeras. Em resumo, uma infra-estrutura para o que se chamou de Projeto TV de Rua, hoje abandonado. 
 

A que se pode  creditar a não consolidação de um projeto de comunicação na região de Marabá? À questão da terra, por ser a maior demanda? A ausência de uma entidade direcionada para tratar especificamente o assunto, como ocorreu com a demanda de  violação de direitos humanos, através da criação de um núcleo da Sociedade Paraense de Defesa de Direitos Humanos? 


Antes da Alternativa FM chegar – Através de remuneração de 10 salários  mínimos por mês para usufruir 15 minutos por semana, durante o período que vai de 1995 a 1998, a Cooperativa Camponesa do Araguaia Tocantins – Coocat,  instituição ligado ao movimento popular do campo, mantinha na emissora de amplitude modulada – AM – Rádio Itacaiúnas, na época de propriedade da família Mutran, o Programa da Coocat. A cooperativa é uma organização que foi gerida no interior do Centro Agroambiental do Tocantins (CAT). Espaço que por uma década aglutinou pesquisadores da Universidade Federal e camponeses. Na ambição de unir ação e conhecimento. Além do programa de rádio, o CAT  semeou publicações e fez uso do teatro de marionetes para fomentar suas demandas.


Não se deu sem desafeto a manutenção do programa de rádio de trabalhadores rurais na emissora de um dos principais grupos de latifundiários da região de Marabá, os Mutran. Ainda podemos considerar a família assim? Além de censura, contam os antigos dirigentes sindicais que teve o seu momento  crítico na relação com os Mutran quando do Massacre de Eldorado do Carajás. 


Dirigentes narram que o programa ao conclamar a população para participação nos protestos contra o Massacre e veicular parte de uma entrevista com o então dirigente da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura – CONTAG – Avelino Ganzer, Guido Mutran, vereador pelo PMDB de Marabá e diretor da rádio obrigou que o programa fosse tirado do ar. É o programa rádio o embrião da a Rádio Comunitária Alternativa FM?


A Rádio Comunitária Alternativa FM – Pode-se dizer que se configura como o xodó de jovens, aposentados,  estudantes, desempregados, sem terra, poetas, universitários, dirigentes que se entrincheiraram para, cada um a seu modo, manter a rádio no ar. Podemos identificar pelo menos dois vetores para se criar a Rádio Comunitária Alternativa FM, com sede em Marabá. 


O primeiro uma trajetória marcada por várias iniciativas de comunicação impressa e o programa da Coocat. O segundo é que no Brasil se consolidava um movimento que irradiava no seio das organizações populares a necessidade de criar mecanismos de comunicação próprios, onde as rádios comunitárias despontavam como ferramenta. 


Como no resto no país, os meios de comunicação de Marabá possuem uma ligação uterina com os detentores do poder político e econômico. A cidade possui dois jornais (Correio do Tocantins e o Opinião), editados duas vezes por semana, cinco canais de TV que repetem as transmissões da Globo, SBT, Rede Boas Novas, Rede Bandeirantes e a Rede Vida. 


O setor de emissoras de rádios contabiliza quatro estações. Sendo duas em freqüência modulada (FM), e duas em amplitude modulada (AM).  O grupo Maiorana comanda um canal de TV e duas emissoras de rádio, uma AM, e uma FM. A Rede Brasil Amazônia (RBA), dos Barbalho, também tem nas mãos um canal de rádio AM, e outro FM. 


O Massacre do Eldorado é um marco histórico na região por diversos fatores. Marca por dá-se num governo de Fernando Henrique Cardoso, professor, conhecedor das chagas que afligem o Brasil. Momento de cimentação de políticas  conhecidas com neolliberais. É após o Massacre de Eldorado, que mobilizou a opinião pública mundial ao lado do Massacre de Corumbiara em Rondônia, ocorrido um ano antes, sobre a persistência da violência no campo e a continuação de uma lógica de Estado autoritário e tutelar. 


Pressionado no país e no exterior o governo vê-se obrigado a responder com algumas iniciativas. Tais como a transformação do posto avançado do INCRA de Marabá numa superintendência regional, a implantação do Ministério  Público Federal entre outras iniciativas. 


Nesse momento atores sociais como o MEB, FASE, CPT, Cepasp, pastorais, associações de moradores despontam como atores iniciam o debate para se construir a rádio comunitária. Após a realização de várias assembléias, entidades como a FASE e o Cepasp promovem uma cotização e busca de recursos com agências financiadoras de iniciativas populares, como a CESE, e a FASE, que disporão de recursos para a compra dos primeiros equipamentos adquiridos em Minas Gerais no segundo semestre de 1997.


A Casa Paroquial na Folha 20, no Núcleo da Nova Marabá vai ser a sede da emissora popular. A emissora vai ao ar pela primeira vez durante 30 dias em caráter experimental no ano de 1998, quando já havia encaminhado ao Ministério das Comunicações pedido de licença de funcionamento, ainda hoje não  atendido.


Em nível nacional os donos dos canais comerciais fomentam uma campanha publicitária contra as rádios comunitárias, e a Polícia Federal e a Agência Nacional de Telecomunicações (ANATEL), promovem uma coerção em escala nacional  lacrando as emissoras de Norte a Sul do país, processando seus diretores em amparos jurídicos da extinta ditadura militar.


Algo é marcante na relação da rádio com as entidades que ajudaram a mesma a ganhar vida e sentido, apesar das organizações compreenderem a importância do canal popular, não há uma incorporação por parte das mesmas na rotina.  As entidades sempre estiveram presentes nos momentos de crise financeira, coerção da PF, assembléias, no entanto ainda não internalizam a rádio na agenda política. 


A Alternativa FM está silenciada desde o dia 30 de outubro de 2001, quando 12 policiais federais armados de metralhadoras e quatro técnicos da ANATEL tomaram os equipamentos da emissora numa operação de guerra. Os agentes chegaram à emissora às sete horas da manhã, após cortarem a energia  elétrica, arrombaram a porta e executaram a operação.


É conhecida a cultura de gente combativa nesses rincões do Brasil, o  movimento da comunicação popular não pode ser avaliado do contexto isolado das lutas que populares que homens e mulheres dessa região. A experiência das  emissoras no sul e sudeste do Pará não tem par em outras latitudes do segundo maior estado em extensão territorial do país. É ímpar as peripécias e as ações que se desenvolvem em torno da radiodifusão comunitária nas regiões sul e sudeste.


A ousadia dos atores que criaram a Rádio Alternativa FM de Marabá, que desencadeou entre outras coisas, o movimento pela reabertura da rádio no dia sete de setembro de 2001, quando ela havia sido lacrada no 17 do mês passado. Na ocasião foi um elaborado um manifesto pela Liberdade de Expressão,  distribuído durante o desfile no Grito dos Excluídos. 


Uma outra ousadia reside no pedido de entrevista através de ofício ao titular da Polícia  Federal para explicar sobre a repressão que a PF vinha fazendo contra as emissoras da região. Além de dois seminários sobre comunicação na Universidade Federal do Pará (UFPA), os rebeldes forjaram o Núcleo de Comunicação das Entidades Populares de Marabá, uma maneira de não personalizar a iniciativa numa ou outra entidade ou pessoa. Prática tão comum em nossa formação social. 


Sempre padecendo de uma crônica ausência de recurso conseguiu realizar seis encontros regionais de rádios comunitárias. A descentralização foi um marco.  Encontros foram realizados em Xinguara, Rio Maria, Nova Ipixuna, Marabá, Parauapebas. Uma característica é que a rádio anfitriã conseguia o espaço físico para a realização, bem como as refeições aos participantes, o que evidencia uma certa unidade. 


A Associação Brasileira de Radiodifusão Comunitária, ABRAÇO regional é parida nessa articulação de emissoras, onde vai  promover em agosto de 2002 uma caravana à Brasília para exigir agilidade nos  processos de licenciamento das emissoras populares. A Câmara de Vereadores de Marabá pauta em sessão especial um debate com representantes da Alternativa FM. 


Mesmo fora do ar a alma da rádio Alternativa FM segue reverberando, Antonio Marques atual diretor da Fundação da Comunitária de Comunicação Popular, pessoa jurídica da Alternativa, que ao lado do ex-diretor Robério Lima  respondem a processo na Justiça, participou de duas edições do Fórum Pan Amazônico em Belém, e reuniões e encontros país afora.


Página recente – Contraponto foi o boletim eletrônico distribuído através da rede mundial de computadores. Ele surgiu no primeiro seminário sobre comunicação popular, realizado em fevereiro de 1999, no Centro de Formação Cabanagem, em Marabá, organizado pelo Cepasp, MEB, CPT e Fetagri,  Alternativa FM. O seminário teve apoio financeiro da Fase do Rio de Janeiro. O boletim foi um dos indicativos a ser desenvolvido pelo que se convencionou chamar Núcleo de Comunicação Popular das Entidades Populares do Sudeste do Pará. 
 

Márcio Jerry, jornalista, ex-assessor de entidades populares no Maranhão, ex-presidente da Associação Brasileiro de Radiodifusão Comunitária (Abraço), foi o animador do debate. A motivação de organiza ção e capacitação de rádios comunitárias nas regiões sul e sudeste do Pará foi outro indicativo do seminário. 


Os itens nascem como uma possibilidade de construir uma política de  comunicação com as entidades populares das regiões sul e sudeste paraense. Um outro personagem que prestou solidariedade ao movimento foi jornalista e  ex-assessor de parlamentares em Brasília, Dioclécio Luz, que esteve participando de seminário na região. 


UM CONTR@PONTO. boletim eletrônico Contraponto foi editado semanalmente, mas sempre, que havia demanda, era comum ser editado duas ou três vezes. Nos três anos de jornada o boletim foi editado cento e dezesseis, dezessete vezes. Agenda das entidades, denúncia de violação dos direitos humanos, pautas ambientais, ajudaram a cimentar a iniciativa. O boletim era distribuído para cerca de mil endereços eletrônicos. Universidades, pesquisadores, meios de  comunicação do Pará, principais meios de comunicação do país, correspondentes internacionais, organizações populares do estado, a nível nacional e internacional, partidos políticos, parlamentares, organizações religiosas, constavam no cadastro de recebimento do boletim. 


Nem só de demanda espontânea respira o Contraponto. Entre as edições figuram algumas especiais, como a comemorativa da edição de número cem, que foi dedicada aos quarenta anos de militância pela reforma agrária de Manoel Conceição Santos. O emblema da luta pela reforma agrária do Brasil é maranhense, colaborou para a fundação do Partido dos Trabalhadores (PT), a nível  nacional e a Central Única dos Trabalhadores (CUT). 

Outra edição especial abordou a história de Sebastião Curió, que teve o caráter de denúncia. Curió foi o homem de confiança do regime militar. Foi a principal personagem no processo de sufocamento da Guerrilha do  Araguaia. A edição foi parida momentos antes da eleição de 2000, quando Curió saiu candidato a prefeito da cidade de Curionópolis, eleição em que ele sagrou-se vencedor.


Em 2001, o conjunto das entidades populares experimentou uma ação repressiva das autoridades estaduais e federais, e dos donos do poder nas regiões sul e sudeste paraense, que só tem paralelo com os anos do regime de exceção. Execução de lideranças sindicais, prisão, operações de guerra para expulsar trabalhadores rurais sem terra de áreas ocupadas, descoberta de serviço de espionagem do Exército direcionado para as entidades populares, compunham o cenário. 


Apoiado em material organizado pela CPT de Marabá, o mesmo entregue para a Comissão de Direitos Humanos (CDH), do Congresso Nacional, o Contraponto promoveu uma edição especial, que gerou reportagem especial do Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, durante uma semana e a publicação do mesmo material na revista carioca, Cadernos do Terceiro Mundo, que circula em todo o Brasil e países da América Latina.


Ao longo de sua jornada o boletim se consolidou como a principal fonte de informação para além fronteiras das regiões sul e sudeste do Pará. O vácuo se encontra na criação de uma ferramenta para o interior dos assentamentos rurais, 322, atualmente, num universo de 60 mil famílias, numa estimativa da CPT. Ainda assim, um boletim da Fetagri chegou a ser editado quatro  vezes. No entanto, só em momento de acampamento ou a dedicada a José Dutra da  Costa, Dezinho, liderança sindical assassinada em Rondon do Pará, em novembro de 2000. 


PÁGINA NA REDE – www.bicopapagaioam.hpg.com.br  É o endereço da página das entidades populares do Bico do Papagaio, norte do Tocantins, sudeste do Pará, oeste do Maranhão inaugurada em fevereiro de 2003. No conteúdo dados sobre as entidades, mapas, artigos, fotos, sugestão de publicações. Um conselho editorial deve ser consolidado a partir das entidades membros da página, entre elas, o Sindicato de Professores de  Marabá, Movimento de Educação de Base (MEB), Cepasp, Coopserviços, Centru,  Laboratório Sócio Agroecológico do Araguaia, Tocantins (Lasat), MST/PA.

Vamos verificar assim na recente experiência de comunicação popular de  Marabá e vizinhança dois níveis de ação. Um direcionado para o interior através das rádios comunitárias da região, nem todas com a compreensão total do caráter comunitário, ou algumas semeadas por políticos que percebem da rádio uma caixa de ressonância de seus interesses. No outro nível verificamos a apropriação das novas tecnologias da informação por parte das entidades, em particular a rede mundial de computadores, voltada para o público  externo, via a página na rede mundial de computadores e o boletim eletrônico  Contraponto. 


A página ainda contém buracos como não informação sobre a Comissão Pastoral da Terra (CPT), Federação dos Trabalhadores Rurais do Pará (Fetagri), e algumas entidades parceiras do Tocantins. Bem como informes sobre a situação agrária da região. Outra brecha reza sobre a experiência das rádios  comunitárias no sul e sudeste do Pará, avaliada como referência do estado. Um outro  problema é o encerramento das atividades do MEB, uma entidade chave no processo de comunicação, e a crise financeira que se abate sobre o Cepasp, a entidade que mantinha o jornalista, e que servia como a base para a edição do boletim eletrônico e que animou a página na Internet. 


No conteúdo da página que não tem sido atualizada desde o seu lançamento no ano de 2003, entre as temáticas constam: meio ambiente, comunicação, manifestos contra a implantação de grandes projetos na bacia do Araguaia Tocantins, resultantes de vários encontros nos estados do Maranhão, Pará e Tocantins. Artigos direcionados para a questão da violência, onde há a contribuição do reconhecido cientista José de Souza Martins, que se debruça sobre a temática da questão há vários anos. Consta ainda na página a  indicação de algumas publicações sobre a região, mapas, e fotos de assentamentos. 


Seis encontros regionais já foram realizados de forma descentralizada desde 1999. Além de dois debates na Universidade Federal do Pará, núcleo de  Marabá. Alguns passos foram dados no sentido de definição de uma política de  comunicação popular para a região. As pistas estão postas, resta a profissionalização e o olhar entre as entidades que ultrapasse a órbita do próprio umbigo, a possibilidade de um financiador ou auto-gestão. 
 


Rogério Almeida é jornalista e mestrando do Núcleo de Altos Estudos Amazônicos- NAEA/ UFPA.

Origem do Conteudo: https://nucleopiratininga.org.br/comunicacao-popular-em-maraba-um-sobrevoo-nos-anos-1980-90/


quinta-feira, 9 de abril de 2026

O pecado original da mídia: o roteiro de A Guerra dos Mundos


Orson Welles (1915-1985), então com 23 anos, foi sem dúvida o personagem principal da história que se passou por trás dos microfones e, no dia seguinte, também diante das câmaras e nas manchetes dos jornais. Mas, como todo produto da mídia eletrônica, A Guerra dos Mundos foi uma produção coletiva e pelo menos outros dois autores de peso contibuiram com ele para o sucesso da obra: o escritor inglês Herbert George Wells (1866-1946), autor do romance em que se baseou o programa, e o roteirista Howard Koch (1901-1995), responsável pelo trabalho mais pesado na hora da adaptação.

Quarenta anos antes de Welles, H.G. Wells já conquistara a fama com o lançamento do romance: A Guerra dos Mundos foi publicada pela primeira vez em folhetim, na revista inglesa Pearson's Magazine, entre abril e novembro de 1897. No ano seguinte, saiu em livro, ampliada na forma de romance, e começou a ser traduzida por todo o planeta. Cem anos depois de seu lançamento, o livro de H.G.Wells é unanimemente reconhecido como uma das obras primas que serviram de matriz para todo o desenvolvimento posterior da literatura de ficção científica. Contemporâneo do francês Júlio Verne, Wells foi o primeiro a imaginar uma invasão extraterrestre e a descrever um ser alienígena.

No final do Século XIX, quando do lançamento do livro, a possibilidade de existência de vida inteligente em Marte era seriamente considerada pela ciência, mas não havia ainda sido tratada pela literatura. Wells não somente estava a par do conhecimento científico de sua época, como também antecipou no livro algumas tecnologias que ainda povoam o imaginário sobre os E.Ts. um século depois: raios laser, máquinas voadoras, máquinas de guerra em forma de aranhas, robots e armas químicas. E, o mais fantástico de tudo, criou tudo isso a partir de uma Londres que ainda se movia principalmente a cavalo e era iluminada à noite com lampiões a gás.

Howard Koch, o roteirista novato e ainda desconhecido do Mercury Theatre on the Air da CBS, recebeu a tarefa de adaptar o texto literário para o rádio. Assim como ocorreu com Welles, o sucesso de A Guerra dos Mundos também catapultou Koch para a milionária indústria do cinema, e em 1942 ele ganharia um Oscar pelo roteiro de Casablanca (cuja estatueta leiloou, um ano antes de morrer, para pagar a universidade da neta).

Mais do que uma adaptação, Koch fez uma recriação do livro, aproximando a estória - no tempo e no espaço - do cotidiano dos ouvintes e introduzindo o próprio rádio como protagonista dos acontecimentos narrados, sem desperdiçar a força dramática já presente no texto que consagrara o autor inglês. Curiosamente, num depoimento de 1968, o roteirista relata que várias vezes propôs a Welles desistir do texto e escolher outra obra, pois não gostou de fazer aquela adaptação. Mas a obstinação do diretor do Mercury Theatre levou A Guerra dos Mundos, que seria seu projeto favorito, até o final, sem se preocupar muito com as vontades - nem com as noites de sono - de seus subordinados na equipe, obrigados a trabalhar sem horário até satisfazer o chefe.

Como se tratava de um programa semanal, o roteiro foi todo produzido em seis dias, de terça a domingo (o roteirista, como tantos profissionais de rádio, tinha folga nas segundas). Koch conta que escrevia a lápis, e que seus manuscritos eram datilografados por uma estagiária na CBS. O script foi feito e refeito uma dezena de vezes, conforme as críticas e sugestões de Orson Welles e do produtor John Houseman a cada uma das versões apresentadas. Só foi considerado pronto um pouco antes do programa ir ao ar.

Já está no romance a abertura genial da estória, que no rádio conservou a força e amplificou o efeito de empatia pretendido pelo autor do livro: descreve como as pessoas na terra seguiam vivendo a sua vida normal, ocupadas com seus vários afazeres, esperanças e ilusões cotidianas, "sem se darem conta de que a vida no planeta vinha sendo observada por inteligências superiores às nossas, porém tão mortais quanto somos, que nos examinavam assim como examinamos os microorganismos que povoam uma gota d'água". Nesta introdução, o roteirista apenas atualizou o presente da narrativa, transferindo "o olhar invejoso e sem simpatia dos marcianos", originalmente postado na vida inglesa do fim do século, para o contexto americano em 1938.

No final da década de 30, o que mais os americanos mais gostavam de fazer era ouvir rádio, e é aí que o veículo entra em cena como protagonista central da estória. Já no segundo minuto da peça, somos levados a esquecer que estamos ouvindo uma obra de ficção, pois aparentemente esta foi interrompida por um boletim metereológico absolutamenre verossímil. Em seguida, estamos acompanhando um programa de música ao vivo, entrecortado por boletins de notícias, que a princípio são bastante realistas e tornam-se cada vez mais frequentes.

O uso de boletins de notícias foi uma idéia de Welles, segundo o depoimento de Koch. Mas se a introdução do rádio na estória é uma criação da equipe novaiorquina, a notícia já representara um elemento narrativo importante no romance de H.G. Wells. Porém, de forma diferente: na invasão de Londres pelos marcianos, os personagens da estória original eram ávidos consumidores de jornais, em cujas edições extras procuravam informações para entender o caos que tomara conta "da mãe de todas as cidades" do auge do Império Britânico. Mas em A Guerra dos Mundos de Welles, a mãe de todas as cidades agora era Nova York, umbigo do novo império, e Nova York vivia ligada no rádio. A diferença fundamental, em relação ao romance, é que nesta nova versão os personagens da estória não são apenas ouvintes de rádio - o que representaria a mera atualização dos personagens-leitores de jornal, passivos: agora, os personagens falam pelo rádio. E, mais do que falar entre si, falam diretamente aos ouvintes.

Pode-se dizer que esta inversão, sutil e raramente notada pelos críticos, foi o que colocou o rádio como o protagonista central da estória, e em consequência inscreveu A Guerra dos Mundos na História real deste século. Não é por mero acaso que este se tornou o programa mais falado da História do Rádio. Ao colocar o rádio no enredo, a equipe de Welles reforçou a invasão marciana de Wells com todo o potencial dramático do meio, que na época vivia sua adolescência, com apenas dezoito anos de experiência desde a fundação da primeira emissora regular, a KDKA de Pittsburgh, também nos Estados Unidos.

Não se sabe até onde a equipe premeditou os efeitos do programa sobre o público. No depoimento, Howard Koch conta que foi dormir logo depois de ouvir a irradiação em sua casa, e que só soube do estrago que havia causado no dia seguinte, ao ler as manchetes dos jornais calmamente sentado na cadeira do barbeiro. Provavelmente, previra apenas provocar alguma empatia no público, com sua escassa experiência de seis meses em seu primeiro emprego regular. De qualquer forma, o programa realizado a partir de seu script revelou ao mundo algumas potencialidades do rádio como meio de expressão que não haviam sido ainda claramente percebidas, enquanto o "sem fio" era pensado apenas como um suporte imperfeito para a transmissão de obras teatrais e literárias produzidas para os olhos.

A transmissão ao vivo, no tempo real do público, característica dos meios eletrônicos, apareceu como uma das principais possibilidades expressivas utilizadas pela equipe do Mercury Theatre com maestria. Para tirar partido dela, o roteirista comprimiu o tempo dramático da história original. No romance, desde a observação, pelos astrônomos, da ocorrência de estranhas explosões no planeta Marte, lançando raios em direção à Terra, até a chegada das naves marcianas a nosso planeta, passam-se nada menos do que seis anos - o tempo calculado para a viagem. No rádio, o percurso não demora mais do que seis minutos, tempo ocupado por uma entrevista com "o astrônomo Pearson", que desdenha a possibilidade de existir vida inteligente no planeta vermelho, e pela execução da música La Cumparsita, pela "Orquestra de Ramon Raquello", que estaria tocando "no Salão Meridian do Hotel Park Plaza". Em consequência, a relação causa-efeito entre o fenômeno observado pelos astrônomos e a queda de um objeto não-identificado na terra, que no livro é explicitada pelo autor, no rádio é inferida antes pelo público, o que o leva a questionar as palavras do entrevistado. No tempo real do público, a estória se passou toda em 44 minutos, mas o tempo dramático e o tempo subjetivo em que se desdobram, a partir daí, todos os acontecimentos narrados, certamente foi o que permitiu o efeito de realidade capaz de iludir, até o desespero, uma grande parcela do público.

A ubiquidade da transmissão e de recepção, e a portatibilidade desta última, são algumas das características da comunicação eletrônica que o rádio inaugurou e de certa forma continua utilizando de forma única. Graças a estas características, continua sendo o meio com maior penetração social - batendo a TV em volume de audiência durante 18 horas por dia - e o que goza de maior credibilidade, apesar do prestígio da imprensa e do sucesso da televisão.]

É esta mobilidade, em ambos os polos do processo comunicativo, que permite, ocasionalmente, a ocorrência de uma fusão de contextos - o da transmissão com o da recepção - fundindo, como observou BARTHES (1984), o acontecimento com o seu relato. Este fenômeno ocorre em muitas situações corriqueiras - como na reportagem de serviço, com o trânsito, ou no estádio de futebol - e fornece à informação do rádio um argumento de autoridade difícil de igualar. Em consequência, a impressão de realidade, que no audiovisual custa tanto esforço construir e se torna tão fácil de desmascarar, no rádio ocorre quase naturalmente, construída no cérebro do ouvinte com a solidez do mundo real que o envolve e que percebe mesclado com o som do receptor. O escritor William BURROUGHS (1968) imaginou utilizar este efeito para provocar uma "revolução eletrônica". Howard Koch e Orson Welles fizeram com ele uma guerra virtual.

Haja criatividade. Richard Pearson, o professor de astronomia que na estória do rádio é o personagem principal, sequer existia no livro. Lá, o astrônomo, chamado Ogilvy, é um personagem secundário, que cai fulminado com os raios de calor disparados pelos extraterrestres no início do romance. O personagem principal do livro era nada menos do que um filosófo, que narra toda a estória na primeira pessoa. A substituição possivelmente foi decidida num esforço de simplificação, em parte justificável pelas características do veículo, em parte pelas características do público-alvo, na época do rádio generalista movido pelo show-business.

A simplicidade é um imperativo do meio e de sua linguagem. Esta lei é sustentada por todos os teóricos do rádio, desde os seus primórdios, quando já começaram a notar a incompatibilidade entre as formas demasiadamente complexas e o veículo exclusivamente auditivo. Está expressa nos alemães KOLB (1931) e ARNHEIM (1936), nos franceses FUZELIER (1965) e TARDIEU (1969) , no belga Theo FLEISHMAN, que fez as primeiras normas de redação para o radiojornalismo na Europa, e no escritor italiano Carlo Emilio GADDA, que as estabeleceu para a RAI na década de 40. Portanto, tecnicamente, a simplificação da estória, com a substituição do filósofo pelo astrônomo, pode ter sido uma boa solução. Porém, do ponto de vista estético, houve uma inegável banalização do tema, o que certamente foi uma das razões da revolta de H.G. Wells com o uso que os americanos fizeram de sua obra. (SARRAUTE, 1976).

O escritor inglês, um humanista convicto, havia pensado A Guerra dos Mundos sobretudo como um questionamento a respeito da civilização, e especialmente do imperialismo de seu país, que na época dominava o mundo. A brutalidade dos marcianos, que se alimentavam de sangue humano, matavam sem necessidade aparente e transformavam tudo a seu alcance em cinzas, é a todo momento comparada, pelo personagem-filósofo do romance, com os genocídios praticados pelos europeus contra os povos por eles colonizados, à crueldade corrente com os animais e à arrogante destruição da natureza por parte de seus compatriotas.

Muito pouco sobrou, desta "moral da estória", na versão do rádio. Talvez a equipe de Orson Welles não fosse tão sensível a estes temas, provavelmente a empresa que pagava os seus salários também não o era, e certamente eram preocupações alheias à cultura de um império emergente, na qual o Mercury Theatre da CBS estava inserido. À moda americana, no programa de rádio todo o mal é encarnado em uma pessoa, um psicopata com que topa o professor Pearson em sua caminhada, e que pretende aprender com os marcianos para depois dominar seus semelhantes e conquistar o mundo. A semelhança com Hitler e Stálin, na época já temidos e demonizados como virtuais inimigos do mundo livre, é mais do que evidente. No livro, este personagem também existe, mas não pensa em dominar ninguém, sua loucura é só de pensar em ser capaz de derrotar os extraterrestres.

O rádio empobreceu A Guerra dos Mundos pela simplificação, mas também aumentou a sua força dramática. Contribuiu para isso, além do tempo real da narração, o fantástico poder de sugestão da palavra sonora e invisível. MCLUHAN (1964) observou que o rádio toca em profundidades subliminares da mente, e que as palavras desacompanhadas de imagem, como quando conversamos no escuro, ganham uma textura mais rica e mais densa. RODRIGUES (1988) relaciona a força psicológica do rádio à voz primordial que ouvimos no útero da mãe, e BANG (1991) atribui ao mesmo fenômeno o poder emocional da música. DE SMEDT (!992) observa que o som nos toca e nos envolve. Como BAKHTIN (1979), salienta que percebemos o visto como algo externo ao corpo, enquanto o que ouvimos ressoa dentro de nós.

O poder de evocação da palavra já é imenso na literatura, e foi utilizado com destreza por H.G. Wells para conduzir a imaginação de seus leitores a uma ruptura da vida cotidiana pela entrada em cena de seres improváveis, superiores e hostis. No rádio, a mesma descrição do suspense de sua chegada, da perplexidade diante de máquinas incompreensíveis e do asco provocado pela aparência dos monstros sai da forma congelada da palavra escrita para tomar vida na angústia, na surpresa e no horror expressados por gargantas humanas. Neste aspecto, Koch pouco alterou a obra do escritor.

Conservando basicamente as mesmas descrições fantásticas, o programa de rádio apenas se encarregou de dar-lhes voz, acrescentando o subtexto da interpretação dos atores com Welles no papel principal. WEISS (1992) propõe que uma mente paranóica atribui à voz desencarnada do rádio as mesmas prerrogativas atribuídas ao Deus judaico-cristão: ubiquidade, panopticismo, onisciência e onipotência. Para BACHELARD (1949), que equiparou a escuta do rádio ao devaneio, a ausência da imagem é a chave para penetrar no mundo interior do ouvinte.

Em alguns momentos, o roteirista utiliza efeitos sonoros - quase sempre para ilustrar um som já referido no romance, como o tic-tac da maquinaria do observatório astronômico ou o zumbido vindo da nave marciana tombada no campo. Mas os efeitos sonoros são reduzidos, diante da complexidade da situação expressa na estória: o que não soa, no rádio, só pode ser expresso pela palavra. Assim, na maior parte das vezes, Koch opta pela palavra, desdobrando em diálogos, entrevistas radiofônicas e boletins de notícia o que no livro é contado em monólogo pelo personagem principal. Para dar ritmo - e efeito de realidade - à narrativa, utiliza um grande número de testemunhas verossímeis e habitués do rádio, como agências de notícias, autoridades, cientistas, militares e "homens comuns".

Apenas no último terço da peça, o roteiro começa a desfazer o engano provocado nos ouvintes, pelo abandono do formato de programa musical/jornalístico adotado desde o início. Aos poucos, o rádio vai deixando de ser protagonista da estória, e a solução encontrada para tanto também é genial: a emissora é destruída pelos marcianos. Só a partir daí, com a continuidade da narrativa, o público pode se tranquilizar com a certeza de estar lidando com ficção. Mas é provável que muitos, já em estado de pânico, não tenham se dado conta tão facilmente disto.

A última parte do script segue um modelo mais tradicional de radiodrama. O rádio sai de cena como protagonista, e se transforma outra vez em veículo para a expressão dos personagens em seu mundo de ficção. O diálogo, agora, não é mais com o ouvinte, mas dos personagens entre si. O comandante com o artilheiro no canhão, o aviador com a torre de comando, o professor Pearson com o psicopata e, por fim, ele só, no monólogo que conta o desfecho da estória: a morte de todos os até então invencíveis marcianos, derrotados pelas bactérias terrestres, e a retomada da vida normal no planeta. A música utilizada, com tema místico, também muda de papel: já não interrompe a estória, mas serve de fundo para enfatizar-lhe o clima. Aqui é onde a estrutura narrativa mais se aproxima do romance, embora haja mais diálogos e outras adaptações determinadas pela diferente natureza do veículo.

A equipe de Welles foi fiel a H.G. Wells em vários aspectos e, onde não pôde ser, muitas vezes procurou soluções que o aproximassem das intenções do autor do livro. Como no caso das interrupções musicais, que criam o ritmo de respiração tão importante para a criação do suspense. No romance, este efeito é conseguido pela intercalação de cenas da chegada dos marcianos com outras absolutamente cotidianas, como a pausa dos protagonistas para o chá das cinco, ou a descrição dos vendedores ambulantes que aproveitam a presença da multidão em torno da primeira nave para oferecer suas mercadorias.

Em seu depoimento, Koch conta que escolheu a localidade de Grovers Mills para a descida dos marcianos apontando para o mapa de olhos fechados, e que a confirmou porque o nome soava bem (a comunidade local agradece, construiu um Museu sobre A Guerra dos Mundos e até hoje fatura com turismo graças a esta escolha aleatória). Mas até a transferência do cenário, da região de Londres para a de Nova York, e também para um presente de quarenta anos após, segue a lógica do romance, que já procura identificação e empatia com o público. Neste ponto, a equipe do Mercury Theatre só pode ser responsabilizada por ter ido um pouco longe demais, ou por não haver se dado conta de que, no rádio, o efeito desta empatia seria totalmente diferente.

Além do tempo real e da fusão psicológica dos contextos, o autor de um script para o rádio tem que ter outro cuidado em relação à maneira como sua mensagem será recebida pelo público: o permanente zoom auditivo (CEBRIAN HERREROS, 1983) entre o ouvir intencionado e o escutar sem atenção, que caracteriza a audição de qualquer programa, requer a reiteração permanente das principais informações, pois estas podem não ser objeto da atenção do público que se dispersa a cada momento. A audição de rádio se caracteriza por um zapping perceptivo (FENATI) entre os estímulos sonoros que saem do receptor, e os demais estímulos auditivos, visuais, olfativos e táteis do contexto da recepção que concorrem pela atenção do ouvinte. Desta forma, a confusão provocada nos ouvintes por A Guerra dos Mundos, para ser evitada, requereria a reiteração, diversas vezes, ao longo do programa, da informação de que se tratava da adaptação de um romance.

De nada adiantou Orson Welles explicar, no final da estória, que tudo não passara de uma brincadeira pelo tradicional Dia das Bruxas: o estrago estava feito. A tênue fronteira entre dois gêneros do discurso radiofônico, o jornalismo e a ficção, já havia sido arrombada. Comprovou-se, então, o que teóricos da linguagem, como BAKHTIN e BARTHES procuram demonstrar há décadas: os gêneros do discurso não pertencem unicamente aos emissores, são também propriedade do público, forjados por cada cultura num diálogo social ininterrupto que se perde nas raízes do tempo. O desrespeito a esta construção coletiva leva à incomunicação ou à convulsão.

Desde então, os limites entre os diversos gêneros têm sido mais fortemente patrulhados, pelos códigos de ética e pelas legislações de radiodifusão de todos os países. Em consequência, A Guerra dos Mundos será sempre lembrada como uma espécie de "pecado original" da mídia. E o roteiro assinado por Howard Koch, produzido sob a orientação do diretor Orson Welles e do produtor John Houseman, como uma autêntica obra prima, que revelou todo o poder da magia do rádio, inclusive para iludir o público, tanto em causas boas e belas, como a da arte e a do entretenimento, como em outras, mais trágicas, como a da exploração da ignorância das massas para mobilizá-las à guerra e mantê-las sob domínio.