quinta-feira, 31 de março de 2022

Advogadas fundam Instituto Tornavoz para defender liberdade de expressão no Brasil

 

Um grupo de advogadas especializadas na defesa da liberdade de expressão lançou no dia 23 de março o Instituto Tornavoz, fundado para garantir defesa jurídica especializada a comunicadores e outros cidadãos brasileiros que sejam alvos de processos “em razão do exercício da manifestação do pensamento e da expressão”, como explica o site da entidade.

O Tornavoz também pretende contribuir para o desenvolvimento de jurisprudência sobre o tema no Brasil, participando de processos estratégicos e de ações de conscientização para promover a discussão e a valorização na sociedade do direito à liberdade de expressão.

Uma das fundadoras e diretoras do Tornavoz é a advogada Taís Gasparian, especialista na área do direito civil relacionado à mídia, à publicidade e à internet. “Dediquei praticamente toda a minha vida profissional à defesa de jornalistas, veículos de comunicação e plataformas digitais”, disse ela à LatAm Journalism Review (LJR).

“Há algum tempo venho notando um uso mais sistemático do Poder Judiciário para intimidação da imprensa – o próprio processo e o receio de uma condenação acabam servindo para inibir a atuação independente de comunicadores e também de artistas, professores e cidadãos”, afirmou.

Segundo ela, contar com apoio jurídico especializado nessa área do direito “faz toda a diferença para que as pessoas e os pequenos veículos não se sintam intimidados pelo processo”. No entanto, Gasparian observa que, no Brasil, há uma concentração de advogados especialistas neste tema no eixo Rio de Janeiro/São Paulo, maiores cidades do país e onde se concentram os principais meios de comunicação brasileiros.

Para combater o que ela chama de “desertos de defesa”, o Tornavoz vai remunerar advogados que atuem em casos acolhidos pelo instituto, além de prover auxílio técnico à defesa. A ideia é que a remuneração “fortaleça o interesse das(os) advogadas(os) nessa área de atuação”, disse Gasparian. “Com isso, esperamos que os resultados de longo prazo da atuação do Tornavoz sejam duradouros: a formação de uma rede de advogados e advogadas com experiência em litígios que envolvam a liberdade de expressão e que, de maneira estruturada, militem em favor dela”, explicou.

Os pedidos de apoio ao Tornavoz devem ser feitos por meio de um formulário disponível no site do instituto. Segundo Gasparian, como os recursos da entidade ainda são escassos, haverá uma seleção e será dada prioridade a casos “que envolvam temáticas ligadas a grupos historicamente marginalizados, tais como, mulheres, pessoas negras, indígenas, LGBTQIA+, que estejam afastadas de grandes centros, e a veículos que se dediquem a tais temáticas ou tenham atuação local/regional”, conforme estipulado no site.

O Tornavoz é parceiro da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) no Programa de Proteção Legal para Jornalistas, lançado em abril de 2021. O Programa oferece assistência jurídica a jornalistas que, em razão do seu trabalho, estejam sendo alvo de processos judiciais com o objetivo de silenciá-los ou constrangê-los, ou que estejam sendo assediados, ameaçados e perseguidos e queiram processar civilmente os agressores. Outro projeto da Abraji, o Ctrl+X, que monitora ações judiciais contra jornalistas, reuniu 5.514 processos que pedem a retirada de conteúdo jornalístico do ar entre 2002 e 2021.

Gasparian disse à LJR que a ideia de remunerar advogadas e advogados trabalhando na defesa da liberdade de expressão fora dos grandes centros já era um objetivo do Tornavoz, mas a atuação no Programa de Proteção Legal para Jornalistas deu à equipe do instituto “a convicção de que esse era o caminho a seguir”.

“Os casos que analisamos dentro do programa da Abraji mostram a vulnerabilidade de jornalistas fora dos grandes centros e a importância de que possam contar com apoio jurídico. A experiência foi e continua sendo importante para estruturar as bases de atuação do Tornavoz”, afirmou.

Para a advogada, “o Brasil não tem uma tradição efetiva de proteção à liberdade de expressão – esse é um direito que está sob constante ameaça e o cenário vem se agravando nos últimos anos”.

“Com a atuação do Tornavoz pretendemos agir pontualmente, por um lado, em cada um dos processos, mas também sinalizaremos que a sociedade civil está atenta a esses tipos de desmandos. A litigância estruturada em defesa desse direito, tanto em casos individuais como em casos estratégicos, é algo que acreditamos contribuir para a proteção da democracia”, disse Gasparian.



https://latamjournalismreview.org/pt-br/articles/advogadas-fundam-instituto-tornavoz-para-defender-liberdade-de-expressao-no-brasil/

sábado, 19 de março de 2022

Texto quase tutorial (2) - como ter umas boas ideias?

 

Por Marcelo Pires, para Coletiva.net | 18/03/2022 19:08


Semana passada, publiquei aqui em Coletiva.net um texto (quase tutorial) sobre como apresentar ideias. Só que, pra apresentar, eureka!, é preciso ter ideias. As dicas de hoje, então, são como facilitar a chegada de conceitos, formas, soluções.

Que fique claro: estamos falando de ideias para Comunicação, a partir de uma necessidade de Marketing. Certo? 

Então, primeiríssimo passo:

  1. Tenha muito clara qual é a tal necessidade de Marketing. O que queremos que fique claro para o consumidor? Valorize o fato de que você tem que resolver um ponto bem específico: o desafio nunca deve ser tipo "mais visibilidade para marca x, citar o serviço y, fortalecer a empresa z". A imagem é meio batida - mas é verdadeira: você não entra no táxi e diz "ande".  Você diz a rua, o número, o bairro - e, às vezes, até sugere o trajeto.  Descubra direitinho aonde você quer chegar antes de embarcar na criação.
  1. Sabendo qual é o assunto, saiba mais a respeito do produto como um todo. A marca tem site? Espie. Tem redes sociais? Fuce. Já anunciou? Reveja. A marca é bem posicionada? Respeite. Trate a comunicação já existente com carinho: aquilo é patrimônio. Mesmo que você vá sugerir mudanças, considere o que foi manifestado até ali. Dizem que, até achar o amor certo, a gente se diverte com os errados. É isso: os errados podiam estar fazendo bobagem no geral - mas, quem sabe, estavam indo bem em áreas específicas. 
  1. Dê uma boa olhada no que anda fazendo a concorrência do produto ou serviço que você vai anunciar. Isso gera parâmetros, além de deixar claro o que você não deve repetir. Como você já vai estar tomando contato com a comunicação em si, esta etapa é estimulante: ver os outros dançarem dá vontade de dançar. Averiguar grandes "cases" atemporais da categoria do produto em questão também ajuda. Desde que tudo isso sirva como orientação, não como algo a ser copiado. Não vale, trabalhando para uma marca de tênis, decidir fazer o mesmo comercial que a Nike acabou de lançar. Olha, tem um monte de gente que faz isso - chama de "tendência" e, pronto, copia adoidado.
  1. Nunca esqueça, você é comunicador, não especialista no negócio do anunciante que está divulgando. O seu talento é saber anunciar automóveis, não construí-los. Tenha sempre isso em mente: o cliente conhece o negócio dele - você tem que entender de linguagem.
  1. Informado sobre a marca, comece a pensar no público desta marca. Que música o consumidor em questão ouve? Que filmes aprecia? A quais aplicativos é fiel? Assiste a que tipo de programa de TV? A qual série? Na sua família, quem tem a cara deste consumidor? Por exemplo, se for a sua mãe... oba, pensar na mãe da gente é mais agradável do que pensar na mulher A/B com mais de 65 anos.
  1. Divirta-se neste processo de ir pensando nas pessoas: lembre de situações em que você se envolveu com gente do mesmo perfil.  Vá anotando - mas não se preocupe ainda em "botar no papel". Rabisque. Salve coisas. Guarde links. Antes de colocar pra cozinhar, a gente tempera, certo? Estamos ainda temperando.
  1. Vá tomar água. Fale de outra coisa. Ligue pra alguém que você gosta. Assobie. Fique em dúvida se é "assobie" ou "assovie". Neste pensar sem pensar, ideias começam a aparecer. Um estalo, uma fagulha e, pronto, dá vontade de, aí sim, escrever.
  1. Dizem que pra ter uma ideia é 10% inspiração e 90% transpiração. Independentemente da soberba de quem cita índices assim tão precisos, transpirar é preciso. Escreva. E reescreva. E escreva de novo. Não existe ideia quando ela não é colocada no papel: não deixe as coisas no ar (na nuvem da internet até pode deixar). Você tem que registrar os seus conceitos, os seus pensamentos, os seus layouts. De uma maneira, inclusive, que os outros entendam. Rabisco é bonitim em criança.
  1. "Vamos dormir com as ideias e falamos mais amanhã." O pressuposto, portanto, é que já tenham rolado ideias. Se já rolaram uns caminhos, vale, sim, esquecê-los um pouco. Vá viver. Fazer coisa melhor. Distrair-se. No outro dia, você terá uma opinião mais precisa a respeito do que já escreveu. Daí, naturalmente vai botar ideia fora, vai ver o que tinha valor, vai reescrever algumas coisas e daí sim sentir o que veio e o que não veio. É comum, neste ponto, que apareçam conceitos novos do que já existiam, novas abordagens. Ótimo: aproveite. Engrosse o caldo. 
  1. Não sei se vou conseguir deixar clara a importância desta próxima dica - mas ela é essencial pra mim. Procure ideias que têm a ver com a marca que você está pensando - que tenha uma relação direta com o assunto. Por exemplo: se você vai divulgar um rum e ele é cubano, cogite pensar em Cuba - isso, de cara, elimina do páreo todos os runs que não são "legítimos". E - seguindo meu exemplo - se o rum em questão se chama, sei lá, Fidel, isto é um excelente e exclusivo ponto de partida. Sinto que, hoje em dia, há um costume de achar bem-vindo tudo que tem tempero atitudinal - uma ânsia de criar hashtags, contemporaneidades. Com isso, as grandes causas atropelam as peculiaridades. Tendo um Fidel (Gold ou  Siver) nas mãos, não vá abordar, sei lá, "a importância de reunir pessoas em torno de um copo para eliminar discórdias tão corriqueiras hoje em dia nas redes sociais". Esta campanha do copo (#rodadadetolerância) serviria pra qualquer bebida - de Fanta Uva a Espumante de Kumbucha. E rum é melhor do que isso.
  1. No processo de criação, costumo ler em voz alta coisas que escrevo. Parece que, assim, os textos existem. Ganham expressão. Estabelece-se o tempo das peças, tempo no sentido de pulsação, de andamento. Recomendo que você faça o mesmo: em voz alta, muito texto se revela mal escrito. Esta leitura "sonora" ajuda, inclusive, na próxima etapa a que estamos chegando. A seleção do que fica e do que não fica. 
  1. Com a agilidade da internet, com a facilidade em postar, os textos e imagens ficaram imediatos. E, muitas vezes, ruins. Revisão é coisa ultrapassada. Esta falsa espontaneidade (eu chamaria de descaso mesmo) está influenciando textos e imagens como um todo. Acredite: nunca vi tanto texto ruim sendo publicado. Tudo em nome do "autêntico", de uma suposta linguagem falada. Bobagem: para algo parecer natural tem que ser muito trabalhado.
  1. Comece a selecionar. Faça uma compilação. Dê uma caprichada na forma. Organize a "casa" pras visitas. Você vai ter que discutir com os outros - e os outros, algumas vezes, são seus chefes. Portanto, organize o samba. Só os gênios improvisam bem. E os gênios são raros.
  1. Respeite as suas manias. Detesta mesa bagunçada? Organize. Tem ideias no chuveiro? Estique o banho. Gosta de ouvir música? Tasque um fone. Caminhar faz você pensar melhor? Vá pra rua. Cada louco com seu jeito. Eu conheço gente que fica brilhante depois de usar "aditivos" (maconha, por exemplo). Mas também conheço gente que fica insuportavelmente improdutiva quando fuma ou bebe (a maioria). A minha droga, confesso, é café.
  1. Não esnobe ideias (suas ou dos outros) que pareçam, em princípio, malucas. Uma sugestão "odara" é melhor do que uma proposta clichê. A ideia zureta pode nascer ridícula - mas, retrabalhada, pode se revelar poderosa.
  1. Tem uma história com o Quintana, o poeta, que eu acho muito significativa. Um chato lá visitou ele na redação do Correio do Povo e pediu pra trocar ideias. Resposta do Seu Mário: "Trocar ideias? Não, eu posso sair perdendo". Na hora de ter ideias, se aproxime (sempre que possível) de quem tem, no mínimo, boas ideias - não de quem só avalia e critica e pondera e comenta e lembra que o prazo está se acabando. Criar é diferente de opinar. Respeite a "cozinha" do restaurante. Só deixe entrar quem não estrague o ponto do molho.
  1. E não seja aquele tipo de pessoa que teve uma ideiazinha e já sai gritando que, pronto, descobriu a pólvora. Tenha uma, tenha outra, tenha várias ideias - e depois decida se tem alguma pólvora ali.
  1. Ajudei? Espero que sim. Última dica: nunca esqueça que existe a palavra "rir" dentro da palavra criar. Sem mau humor, tudo acontece mais fácil.

Marcelo Pires é publicitário, consultor e roteirista. O Silva da Ideia da Silva.


https://coletiva.net/artigos/texto-quase-tutorial-2-como-ter-umas-boas-ideias-,412046.jhtml


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terça-feira, 15 de março de 2022

Principal obstáculo do jornalismo hoje: a indiferença do público


Mar 6, 2022 em Engajamento da comunidade | FONTE ijnet






O principal problema dos veículos jornalísticos em tempos de redes sociais e ataques contra a imprensa não é a hostilidade contra eles, mas a indiferença do público. É o que revela o estudo “Superando a indiferença: o que as atitudes em relação às notícias nos dizem sobre a construção da confiança” do Reuters Institute.

A pesquisa, que analisou em quatro países (Brasil, Estados Unidos, Reino Unido e Índia) o grau de confiança nas notícias, descobriu que aqueles que geralmente não confiam nelas não são necessariamente indivíduos mais hostis com a cobertura midiática. Na realidade, são os que tendem à indiferença, sendo menos conhecedores sobre como o jornalismo é produzido e praticado e menos interessados nas decisões editoriais feitas diariamente pelas mídias ao produzirem notícias.

Para Ricardo Gandour, jornalista e consultor em estratégia de comunicação que dirigiu as redações da CBN e Estadão, os “publishers” dos veículos cometeram uma falha histórica ao não explicarem como funciona o trabalho jornalístico para o público. “Por muitos anos falamos apenas com a nossa ‘bolha’ de leitores intelectualizados quando deveríamos ter educado e atraído mais leitores”.

Fatores externos ao jornalismo, criados pela revolução digital que aproximou as pessoas dos fatos sem a necessidade dos jornalistas como intermediários, também contribuíram para a desconfiança dos indivíduos. É o que considera Conrado Corsalette, cofundador e editor-chefe do Nexo. Soma-se a isso o papel de líderes populistas que divulgam informações sem compromisso com a realidade.

“Hoje o ambiente informativo está pior do que antes. Um dos efeitos colaterais da universalização do acesso à informação é a produção organizada de fake news. Existem sites que se dedicam à elaboração deliberada de desinformação como negócio", analisa Gandour.

Perfil dos que não confiam

De acordo com o estudo, os que geralmente não confiam nas notícias tendem a ser mais velhos, menos educados, menos interessados em política e menos ligados aos centros urbanos. No Brasil, o perfil é de homens brancos mais velhos e mais propensos a avaliar favoravelmente o presidente Jair Bolsonaro.

Além disso, os brasileiros são o povo que mais desconfia da capacidade da mídia de assumir os próprios erros. 78% acreditam que a imprensa tenta esconder suas falhas, índice maior do que as taxas de Reino Unido (64%), Estados Unidos (59%) e Índia (55%). De maneira geral e especialmente nesse público, a experiência de interagir com jornalistas é rara e a familiaridade com conceitos básicos jornalísticos é muitas vezes baixa, como saber a diferença entre um editorial e uma notícia ou entre uma notícia e um comunicado à imprensa.

Caminhos para reconexão com o público

Há um consenso de que a educação midiática é necessária no processo de conquista do público. “Ela é um trabalho de base de longo prazo e um serviço de utilidade pública que deveria fazer parte do dia a dia das escolas. Há diversas iniciativas sobre o tema em andamento no Brasil, mas na minha avaliação deveria ser algo massivo, inclusive com atenção maior do poder público”, pontua Corsalette.  

Sérgio Lüdtke, editor-chefe do Projeto Comprova, iniciativa de fact-checking que reúne 24 redações, acredita que é preciso mais transparência. “No Comprova temos uma seção fixa em cada texto com o passo a passo de toda investigação feita e links para que os leitores possam checar se as informações são verdadeiras”, explica Lüdtke. "Ter objetivo definido, justificar suas escolhas editoriais e mostrar como seus jornalistas trabalham ajudam bastante um veículo a se aproximar dos seus leitores".

Para Corsalette, além da transparência nos procedimentos, a busca por mais clareza ao reportar os fatos com uma utilização mais competente dos recursos digitais ao contar histórias é urgente. “Isso é central para a reconexão com o público. Uma história será mais bem contada a partir da maneira que você escolhe contá-la. Muitos relatos podem ser feitos por infográficos, vídeos, materiais interativos, sem que seja necessário escrever longos textos”.

Outra questão importante levantada é o aumento da diversidade nas redações para que a produção da notícia abarque uma realidade mais ampla e vá além da visão de classe média branca que costuma ocupar esses espaços.

Para fazer frente aos impulsos autoritários de líderes populistas, Gandour defende um “pacto civilizatório” por parte dos candidatos nas eleições deste ano. “Assim como eles se comprometem com o combate à fome e à desigualdade, é necessário atuar para garantir o livre fluxo de informações profissionalmente apuradas pela imprensa”.

Papel das redes sociais

A importância adquirida pelas grandes plataformas de tecnologia como divulgadores de conteúdo é outro fator que deve ser levado em conta ao se discutir confiança nas notícias. “Há uma pressão muito grande sobre essas empresas para que elas também prestem contas a respeito de seus processos internos. Elas têm uma grande responsabilidade e não é mais aceitável que se digam neutras em relação a conteúdos que incentivam a desinformação, o ódio e a intolerância”, enfatiza Corsalette. “Elas poderiam ter uma governança editorial transparente; montar conselhos como os existentes em vários veículos; e assumir-se como veículos jornalísticos e não como empresas de tecnologia. É papel delas dar a origem da informação e separar o que é informação de opinião”, conclui Gandour.


Foto: Canva 


https://ijnet.org/pt-br/story/principal-obst%C3%A1culo-do-jornalismo-hoje-indiferen%C3%A7a-do-p%C3%BAblico


sexta-feira, 11 de março de 2022

Texto quase tutorial - como apresentar ideias?

 

Por Marcelo Pires | para Coletiva.net | 10/03/2022 13:39

Muita gente que trabalho (ou trabalhei) considera que sou um bom apresentador de ideias, campanhas, roteiros. Inúmeras vezes, mais do que eu gostaria inclusive, aconteceu de clientes, ao verem o material pronto, dizerem que a peça era melhor quando eu tinha contado na reunião. 

Por isso, peço licença, e vou dar umas dicas de como apresentar ideias. Posso?

 

  1. Antes de mais nada, ao começar a apresentação das suas ideias, resgate o briefing, o problema a ser resolvido. Coloque todos na mesma página: não estamos discutindo, por exemplo, quem é Fla e quem é Flu. Estamos falando sobre uma solução de marketing. Alinhar o briefing evita que se destruam boas propostas de comunicação rediscutindo outros problemas do cliente, não a ideia em si. 

 

  1. Com gentileza, espere que as pessoas esqueçam um pouco os seus celulares. Hoje em dia isso é uma tarefa árdua. Ainda mais com tanta reunião online. Prestar atenção em você neste momento não é favor, é job description. 

 

  1. Apresente sem pressa. Não se atropele. Se o pessoal tiver disponíveis apenas 5 minutinhos, peça pra apresentar em outra hora, com mais calma. Se não remarcarem a reunião, não apresente tudo o que você escreveu. Selecione a ideia que você gosta mais e a apresente com pompa e circunstância.

 

  1. Na hora de apresentar ideias, eu nunca (nunca!) dou o material para acompanharem enquanto falo. Eu conto as ideias. Depois, passo cópias do material. Estabeleço o ritmo. Pontuo detalhes. E olho a reação dos outros. Se estão rindo, se estão emocionados, se estão distraídos, se não estão gostando. Esta primeira reação vale ouro. Quando você dá cópias do material antes de apresentar, todo mundo pára de prestar atenção em você - e lê tudo rapidinho, fazendo questão de espiar o que está escrito lá no fim da última página. 

 

  1. Defenda, discuta, ouça, quebre pau, valorize a (boa) opinião dos outros, finja que levou a sério a (péssima) ideia dos outros, considere reparos, mudanças e esteja preparado para que, neste processo, mude tudo, surja algo incrível que não estava previsto. Isso mais é comum do que parece. O assunto se expande - e novos ângulos se revelam. 

 

  1. Compreenda que ideias que você pensou podem ser muito legais - mas podem também se revelar inviáveis. Você é um profissional - não um "provocador". Partida se ganha fazendo gol - e dentro do tempo regulamentar.

 

  1. Ao final da apresentação, seja objetivo: o que ficou em pé? O que foi derrubado? Qual ideia cresceu? Qual se mostrou frágil? Reunião sem direcionamento é perda de tempo. Apesar da subjetividade que existe em discutir ideias, saiba para onde você deve seguir. Não comece do zero, a não ser que tudo tenha se revelado muito equivocado. Este negócio de "botar a bola no meio do campo e recomeçar tudo de novo" é coisa de quem não sabe bem o que está fazendo.

 

  1. Observação complementar ao item anterior: faça reunião com quem vale a pena. Reunião com um monte de gente pra avaliar proposta é pedir pra dar tudo errado. Unicórnio vira beija-flor. As pessoas em grupo tendem a reagir com preconceitos, com segundas intenções, com tendência a lacramentos modernosos. A sua ideia pode ser magnífica, se o chefe não gostar, o puxa-saco do chefe vai detestar. Então, se possível, veja em que reunião você vai entrar. E, se realmente entrar, vá vacinado (com três doses).

 

  1. Empresas têm vários departamentos. Combine detalhes do trabalho antes de criar tudo. Exemplo tosco: se o produto vai ser anunciado em rádio, você tem que saber a respeito disso - um outdoor ainda não foi veiculado em frequência modulada. Isso evita que cada departamento venha com um papo descolado do outro. Isso acontece muito, apesar de, a princípio, parecer bizarro. É patético - mas acontece.

 

  1. Depois das primeiras reuniões, café se faz necessário.  Você pode tomar quantos cafés quiser (ou chás ou água ou o que for) em vários momentos do processo, estou apenas sugerindo paradas essenciais. Como você ouviu muito, passou por críticas, análises, maldades, burrices, politicagens, comentários esperados e inesperados, absorva. Respire. E, com fôlego renovado, volte pra fase transpirar.

 

  1. Tendo ouvido opiniões e selecionado caminhos, é hora de fechar as ideias, construir o projeto, erguer o material final. Seja minucioso, seja caprichoso, suas ideias estão boas, faça com que os outros também gostem dela. Mostre referências, layouts, encante as pessoas. Ideias são líquidas, são gasosas: materialize.  Mostrar é mais eficiente do que explicar. Mas, cuidado, referência é referência - não é material finalizado. Na minha vida, storyboards, por exemplo, mais atrapalham do que ajudam. Procurar fazer filmes iguais a storyboards é não entender que a cidade é diferente do mapa.

 

  1. Depois de pronto, reapresente tudo com entusiasmo. É hora do show - na maioria das vezes, o cliente final vai estar presente só nesta etapa. Use linguagem de gente: clientes não trabalham com marketing, muitos termos corriqueiros pra você são grego pra maioria dos mortais. Encher uma apresentação com termos técnicos é chato. Boas ideias falam por si. Seus concorrentes vão usar toneladas de termos técnicos. Deixe eles serem padronizados: fale com a máxima naturalidade.

 

  1. Material aprovado? Comemore. Ideias na sua origem são frágeis, muito frágeis: se o projeto resistiu até aqui é porque ele tem mérito (ou porque era um tremendo lugar-comum e foi aprovado meio que por inércia).

 

  1. É fundamental perceber que, depois de tudo isso, a sua ideia ainda não existe. É exatamente isso que você leu. Muitos criativos não se dão conta disso. Toda esta trabalheira foi o "antes". Começa, a partir daqui, a produção, o esforço que realmente vai transformar a ideia em realidade - o "depois". Um criativo não pode ser alguém que não participa de todas as etapas. Tem que escolher bem seus parceiros de produção, saber acompanhar com sensibilidade este processo de realização e, depois, no fim, ainda aprovar as peças finais com o cliente. Você vai criar a sinfonia. Mas também vai carregar o piano.  Força.

 

  1. E, no fim, está tudo sempre recomeçando.

 

Marcelo Pires é publicitário, consultor e roteirista. O Silva da Ideia da Silva.


https://coletiva.net/artigos/texto-quase-tutorial-como-apresentar-ideias,411632.jhtml